Todos os domingos ele levantava cedo, caminhava vagarosamente até o banheiro. Lá, retirava de si todos os fantasmas do passado e encarava-se de forma desleal em frente ao espelho. Não reconhecia a si próprio diante da imagem inóspita encontrada. Mal sabia que sua pobre ingenuidade lhe fora causadora de tamanha descrença. Então, voltou-se à porta da cozinha e tomou seu desjejum. Olhava para todos os lados da casa. Ainda estava estupefato. Os últimos acontecimentos lhe deixara atordoado. "Senhor, o que causara-me tamanha angústia? Será que fora tudo um sonho ou uma terrível realidade?".
Colocou o terno que estava separado e pendurado em seu armário. Não era o terno comum. Não era um dia comum. Era Domingo. Domingo era sinônimo de "visita à casa do Senhor". Entrentanto, sabia ser aquele domingo bem diferente dos outros. Sua mente aturdida não lhe deixara raciocinar. Deu o nó da gravata. Apanhou os sapatos. Lágrimas escorreram-lhe pela face. Estava chorando?! Sim, parecia que sim.
Caminhou mais vagarosamente ainda à Igreja. Ao chegar, deparou com a cena mais terrível que poderia lhe acontecer. Tudo estava igual a como era antes. Todas as pessoas nos mesmos lugares, os mesmos rostos, as mesmas expressões, o mesmo Padre, as mesmas músicas da Campanha da Fraternidade. Porém, algo soava diferente em meio ao normal. Ele era o diferente. Ele já não se sentia como em todos os outros domingos. Por um instante, um breve instante, parou, olhou tudo ao redor e lembrou-se de quando aos domingos sua mãe repetira os mesmos gestos: acordava-o, dava-lhe café e dirigiam-se à Igreja. Sentavam no mesmo banco. Foi ali que ele conhecera sua esposa. Foi ali onde batizou seus dois filhos. O que poderia estar errado, então!?
Sentou-se no último banco da Igreja e pôs-se à pensar. Pensou durante toda a Liturgia. Não conseguia imaginar o que lhe havia acontecido. Seu coração urrava de tristeza. Sua mente latejava de tanta dor. Estava inquieto. Agradeceu à Deus, e ao mesmo tempo pediu-Lhe perdão, por ter acabado tão rápida a Missa.
Correu até em casa, trancou-se no quarto e foi, então, que o acontecido veio-lhe em cheio... não havia sido um sonho, era realidade! A mais pura e dolorosa realidade. Aquele que foi à Igreja, não era o mesmo que tinha ido dormir no dia anterior. A tristeza em seu coração, transmitida nas lágrimas derramadas durante a Missa, foi traduzida pela incredulidade estampada em seu rosto. Agora sabia! Agora lembrava! Agora poderia dizer, diante do espelho, o mal que o acometia.
Chorou como um menino quando descobriu-se incapaz de acreditar naquele fúnebre domingo. O terno que vestia era negro. As lágrimas em seu rosto eram de dor. O sentimento era de perda. O caixão que vira o tempo todo durante a Missa era o seu. No final das contas, descobriu ser mais um João em meio a tantos outros que são iludidos e enganados por pessoas falsas e, exatamente, por isso, resolveu matar o João e renascer um José.
Agora sabia quem, de fato, iria às Missas aos domingos...